Liturgia › 18/06/2014

Solenidade: Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

corpocristo

Jesus é o pão que sustenta para sempre

1ª Leitura: Dt 8,2-3.14b-16ª
Sl 147
2ª Leitura: 1Cor 10,16-17
Evangelho: Jo 6,51-59

51 E Jesus continuou: «Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem come deste pão viverá para sempre. E o pão que eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha a vida.»

52 As autoridades dos judeus começaram a discutir entre si: «Como pode esse homem dar-nos a sua carne para comer?» 53 Jesus respondeu: «Eu garanto a vocês: se vocês não comem a carne do Filho do Homem e não bebem o seu sangue, não terão a vida em vocês. 54 Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. 55 Porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida.

56 Quem come a minha carne e bebe o meu sangue vive em mim e eu vivo nele. 57 E como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, assim, aquele que me receber como alimento viverá por mim. 58 Este é o pão que desceu do céu. Não é como o pão que os pais de vocês comeram e depois morreram. Quem come deste pão viverá para sempre.»

59 Jesus disse essas coisas quando ensinava na sinagoga de Cafarnaum.


* 51-59: A vida definitiva se encontra justamente na condição humana de Jesus (carne): Jesus é o Filho de Deus que se encarnou para dar vida aos homens, isto é, para viver em favor dos homens. A vida definitiva começa quando os homens, comprometendo-se com Jesus, aceitam a própria condição humana e vivem em favor dos outros. E Jesus dá um passo além: ele vai oferecer sua própria vida (carne e sangue) em favor dos homens. Por isso, o compromisso com Jesus exige que também o fiel esteja disposto a dar a própria vida em favor dos outros. A Eucaristia é o sacramento que manifesta eficazmente na comunidade esse compromisso com a encarnação e a morte de Jesus.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

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Comunhão com o Dom de Cristo

Como que prolongando a atmosfera pascal, atmosfera do mistério de nossa redenção pelo Senhor morto e glorificado, a Igreja quer celebrar de modo mais expresso o sacramento pelo qual participamos da doação até o fim de seu corpo e sangue, conforme a palavra de Jesus na Última Ceia (*). Embora esta celebração seja uma extensão da Quinta-feira Santa, o evangelho  é o texto eucarístico de João, que não se encontra no contexto da Última Ceia, como nos evangelhos sinóticos, mas no contexto da multiplicação do pão. Jesus explica o sentido do “sinal do pão”. Para os judeus, a multiplicação do pão significou saciação material (cf. o messianismo político); para Jesus, significava o dom de Deus que desce do céu, e que é ele mesmo, em pessoa. Ora, na última parte do discurso (Jo 6,51-58), Jesus especifica mais ainda: esse dom do céu é “sua carne (= existência humana) dada para a vida do mundo” (cf. a fórmula paulina da instituição da Eucaristia, “meu corpo [dado] por vós”, 1Cor 11,23). Devemos participar deste dom, para termos em nós a vida que ele nos traz, a vida que não é deste mundo, mas de Deus mesmo, a vida eterna (literalmente: “a vida do século [vindouro]”).

Devemos assimilar em nós a existência de Cristo por nós, sua “pró-existência”. Assimilar, pela fé, pela adesão existencial, dando razão a Jesus e conformando nossa vida com a sua. E o sinal sagrado, o sacramento disto, é: comer realmente o pão que é sua “carne” e beber o vinho que é seu sangue. A “carne” é a existência humana, carnal, mortal (**); o sangue é a vida derramada na morte violenta. É isso que devemos assimilar em nós pelos sinais sagrados. A essas realidades devemos aderir na fé, assinalada pelo sacramento. Devemos “engolir” Jesus bem assim como ele foi: dado até a morte sangrenta. Realizando autenticamente este sinal, teremos a vida divina que ele nos comunica.

A 1ª leitura serve para preparar o reto entendimento do sinal do pão, ao qual o evangelho faz alusão. Já no Dt 8,3, o dom do maná, do “pão caído do céu”, é interpretado num sentido não material, mas teologal: o homem vive de tudo que sai (da boca) do Senhor: sua palavra, sua Lei. Ora, a Palavra por excelência é Jesus Cristo. O Sl 147 relaciona, exatamente, o dom do trigo com a palavra que Deus manda para a terra (salmo responsorial).

Na 2ª leitura, Paulo lembra – talvez utilizando as palavras de algum hino dos primeiros cristãos – que o cálice do sagrado “brinde” (bênção) e o pão repartido na assembléia cristã são participação e comunhão do sangue e do corpo do Senhor; participação ou “mistério” que nos faz reviver a doação do Cristo e realizá-la em nossa vida. E essa comunhão do único pão nos torna o único Corpo do Cristo.

Portanto, a festa de Corpus Christi não é veneração supersticiosa de um pedacinho de pão, nem uma ocasião para mandar procissões triunfalistas pelas ruas. É um comprometimento pessoal e comunitário com a vida de Cristo, dada por amor até a morte. E o memorial da morte e ressurreição do Cristo (oração do dia), mas não um mausoléu; é um memorial vivo, no qual assimilamos o Senhor, mediante a refeição da comunhão cristã, saboreando um antegosto da glória futura (oração final, cf. O Sacrum Convivium, de S. Tomás). Merece atenção ainda a oração sobre as oferendas, inspirada na Didaqué e em 1Cor 10,17, utilizando o simbolismo do trigo e da uva reunidos até formarem pão e vinho, para simbolizar a unidade da Igreja em Cristo. Pois a festa de Corpus Christi é também a festa do seu Corpo Místico, a Igreja, que ele nutre e leva à unidade da mútua doação.

(*) O formulário provém essencialmente de S. Tomás de Aquino (esp. A seqüência Lauda Sion)
(**) Cf. Is 40,6: “Toda a carne é como a erva…”

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A Eucaristia

Tomando o pão e o vinho da eucaristia, recebemos Jesus como verdadeiro alimento e bebida. A sua vida, dada para a vida do mundo, até a efusão de seu sangue, torna-se nossa vida, para a eternidade. Esse dom do Cristo vale muito mais que o maná, com o qual Deus alimentou os antigos judeus no deserto (1ª leitura). O pão e o cálice, recebidos na fé, nos fazem participar da vida que Cristo viveu até a sua morte por amor, e nos unem em comunhão com os irmãos (2ª leitura). Celebrar é tornar presente. Receber o pão e o vinho da Eucaristia significa assumir em nós mesmos a vida dada por Jesus até morrer para todos nós, em corpo e sangue. Significa “comunhão” com esta vida, viver do mesmo jeito. E significa também comunhão com os irmãos, pelos quais Cristo morreu (“um só pão”).

Quando, na oração eucarística, o sacerdote invoca o Espírito Santo e pronuncia sobre o pão e o vinho as palavras de Jesus na Última Ceia, Jesus se torna presente, dando-nos seu corpo e sangue, sua vida dada em amor até o fim. Quando nós então recebemos o pão e o vinho, entramos em comunhão com a vida, a morte e a glória eterna de Jesus, e também com os nossos irmãos, que participam da mesma comunhão.

Na Eucaristia torna-se presente o dom da vida de Cristo para nós. Mas a Eucaristia se torna fecunda apenas pelo dom de nossa própria vida, na caridade e solidariedade radical. Para que o pão eucarístico realize a plenitude de seu sentido, é preciso resgatar o pão cotidiano da “hipoteca social”que o torna sinal de conflito, exploração, anticomunhão. Quando o pão cotidiano significar espontaneamente comunhão humana, e não suor e exploração, o sentido de comunhão do pão eucarístico será mais real. Antes de falar da eucaristia, Jesus multiplicou o pão comum.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes