9 de novembro

DEDICAÇÃO DA BASÍLICA DO LATRÃO

A catedral do Papa

Cátedra

Celebramos no dia 9 de novembro a Dedicação da Basílica do Latrão, considerada a igreja-mãe de todas as igrejas católicas, por ser a catedral do Papa, bispo de Roma. A igreja originária foi construída pelo imperador Constantino, durante o pontificado de papa Melquíades no séc. IV, no terreno doado por Fausta, esposa do Imperador.

Nela foram realizados os quatro primeiros Concílios Ecumênicos realizados no Ocidente: em 1123 para resolver a questão das Investiduras, (o provimento em algum cargo eclesiástico por parte do poder civil); em 1139, sobre questões disciplinares; em 1179 para tratar da forma de eleição do Papa; em 1215, sobre várias heresias e a reforma eclesial. Neste último, estiveram presentes São Francisco e São Domingos, grandes reformadores de seu tempo. Por esta ocasião, teriam se conhecido e se tornado grandes amigos. Neste mesmo concílio, Inocêncio III teria pregado sobre o sinal do Tau; o que marcou profundamente o seráfico pai, passando a utilizá-lo em todas as usas cartas como sua assinatura pessoal.

Em 1209, no local onde hoje está a atual Basílica, Francisco e seus onze companheiros receberam a aprovação do papa Inocêncio III para iniciar sua forma de vita. Antes, conta-nos as legendas, o papa “tinha visto em sonhos que a basílica de Latrão prestes a ruir, mas sendo sustentada por um religioso, homem pequeno e desprezível, que a sustentava com seu ombro para não cair. E disse: ‘Na verdade este é o homem que, por sua obra e por sua doutrina, haverá de sustentar a Igreja’. Foi por isso que aquele senhor acedeu tão facilmente ao seu pedido e, a partir daí, cheio de devoção de Deus, sempre teve especial predileção pelo servo de Cristo” (2Cel 17). A atual construção data de 1735, e a assistência religiosa na Basílica está confiada aos frades Franciscanos. Em frente à basílica se encontra um monumento comemorando a chegada de São Francisco com seus primeiros companheiros.

Monumento

Segunda Vida de Tomás de Celano, 11

Da comparação que propôs diante do Papa

16 
1 Na ocasião em que se apresentou com os seus ao papa Inocêncio, para pedir a aprovação de sua regra de vida, o Papa achou que seu propósito estava acima de suas forças e, como era dotado da maior discrição, disse: “Meu filho, pede a Cristo que nos manifeste sua vontade, para que, conhecendo-a, possamos concordar com maior segurança com os teus piedosos desejos”.
2 O santo atendeu à ordem do Pastor supremo e correu a Cristo confiantemente. Rezou insistentemente e exortou os irmãos a suplicarem a Deus com devoção.Sonho
3 Que mais? Obteve uma resposta na oração e contou aos filhos a salutar novidade.
4 A conversa familiar com Cristo foi conhecida em parábolas: - “Francisco, dirás isto ao Papa: uma mulher pobrezinha, mas bonita, morava em um deserto.
5 Um rei se apaixonou por ela por causa de sua grande formosura, desposou-a todo feliz e teve com ela filhos belíssimos.
6 Quando já estavam adultos e nobremente educados, a mãe lhes disse: “Não vos envergonheis, meus queridos, porque sois pobres, pois sois todos filhos daquele grande rei.
7 Ide com alegria para sua corte, e pedi-lhe tudo que precisais’.
8 Surpresos e felizes quando ouviram isso e, orgulhosos por saberem que eram de linhagem real, pois previam que seriam os herdeiros, consideraram riquezas toda sua pobreza.
9 Apresentaram-se ousadamente ao rei, sem temer o rosto que era parecido com o deles.
10 Vendo neles essa semelhança, o rei perguntou, admirado, de quem eram filhos.
11 Quando disseram que eram filhos daquela mulher pobrezinha do deserto, o rei os abraçou dizendo: ‘Sois meus filhos e meus herdeiros, não tenhais medo!
12 Se até estranhos comem à minha mesa será muito mais justo que eu alimente aqueles a quem está destinada por direito a minha herança toda’.
13 Por isso o rei mandou que a mulher levasse todos os seus filhos para serem alimentados em sua corte”.
14 Alegre e contente com a parábola, o santo foi logo contar ao Papa o sagrado oráculo de Deus.

17
1 Essa mulher era Francisco, pela fecundidade de seus muitos filhos, não pela moleza de sua vida. O deserto era o mundo, então inculto por falta de doutrina e estéril em virtudes. A prole abundante e formosa era a multidão dos frades, rica de toda virtude. 

Sonho II2 O rei era o Filho de Deus, de quem se tornaram parecidos pela santa pobreza, em cuja abundante mesa real f foram alimentados por terem desprezado toda vergonha das coisas vis, pois estavam contentes com a imitação de Cristo e viviam de esmolas, sabendo que haveriam de conquistar a bem aventurança através dos desprezos do mundo.
3 O papa ficou admirado com a parábola que lhe foi proposta e reconheceu sem dúvidas que Cristo tinha falado no homem.
4 Lembrou-se de uma visão que tivera poucos dias antes e, iluminado pelo Espírito Santo, afirmou que haveria de cumprir-se naquele homem.
5 Tinha visto em sonhos a basílica de Latrão prestes a ruir mas sendo sustentada por um religioso, homem pequeno e desprezível, que a sustentava com seu ombro para não cair.
6 E disse: “Na verdade este é o homem que, por sua obra e por sua doutrina, haverá de sustentar a Igreja”.
7 Foi por isso que aquele senhor acedeu tão facilmente ao seu pedido e, a partir daí, cheio de devoção de Deus, sempre teve especial predileção pelo servo de Cristo.
8 Concedeu-lhe imediatamente tudo que queria e prometeu que ainda haveria de fazer mais concessões.
9 Com a autoridade que lhe foi concedida, começou a lançar as sementes das virtudes e a percorrer as cidades e vilas pregando com fervor.

Espelho da Perfeição, 43

A humilde resposta de São Francisco e São Domingos, quando, juntos, foram interrogados se queriam que seus frades fossem prelados na Igreja

Domingos e Francisco1 Na cidade de Roma, quando os dois claros astros do universo, o bem-aventurado Francisco e o bem-aventurado Domingos, estavam diante do senhor de Óstia, que depois foi sumo pontífice, 2  contavam um ao outro coisas melífluas sobre Deus. Por fim o senhor de Óstia lhes disse: “Na Igreja primitiva, os pastores e os prelados eram pobres e ho­mens ardentes de caridade e não de ambição. 3 Portanto, por que não fazemos de vossos frades bispos e prelados, que se distingam de todos os outros pelo testemunho e pelo exemplo?” (cf. Tt 2,7).
Estabeleceu-se entre os santos uma humilde e devota contenda (cf. Lc 22,24) sobre a resposta, não para se adiantar, mas para um ceder ao outro e levá-lo a responder. 5 Por fim, ven­ceu a humildade de Francisco em não ser o primeiro a responder, e venceu também Domingos que, respondendo por primeiro, obedeceu com humildade..
6 Assim, respondendo, São Domingos disse: “Senhor, meus frades estão elevados a bom grau, se querem reconhecê-lo; en­quanto eu puder, jamais permitirei que atinjam outro tipo de dig­nidade”.
7 Depois, inclinando-se diante do referido senhor, o bem-aventurado Fran­cisco disse: “Senhor, meus frades chamam~se menores para que não presumam tornar-se maiores (cf. Mt 20,26). 8 Sua vocação lhes ensina a ficar no chão e a seguir os passos da humil­dade de Cristo, para que, no fim, sejam exalta­dos mais que os outros aos olhos dos santos (cf. Sb 3,13). 9 Se quiserdes que produzam fruto na Igreja de Deus(cf. Fl 3,6), mantende-os e conservai-os no estado de sua vocação; e, se subirem a postos mais elevados, fazei-os voltar à força para baixo e não permitais que subam a uma prelatura”.
10 Estas foram as respostas dos santos. Assim que termina­ram, o senhor de Óstia ficou muito edificado com as res­postas dos dois e deu imensas graças a Deus (cf. At 27,35).
11 Afastando-se os dois juntos, o bem-aventurado Domingos pe­diu ao bem-aventurado Francisco que se dignasse dar-lhe a corda com a qual se cingia. O bem-aventurado Francisco recusou por humildade, como o bem-aventurado Domin­gos pedia por caridade. 12 Mas venceu a feliz devoção do pedinte e, recebida a corda do bem-aventurado Francisco pela violência da ca­ridade, o bem-aventurado Domingos cingiu-a sob a túnica interior e, daí por di­ante, usou-a com devoção.
13 Por fim, um pôs suas mãos entre as mãos do outro e, doce­mente, um se recomendou ao outro. O bem-aventurado Domingos disse ao bem-aventurado Francisco: “Frei Francisco, eu desejaria que a tua e a minha Ordem formassem uma só, e vivêssemos na Igreja de igual forma”.
14 Finalmente, quando se separavam um do outro, o bem-aventurado Domingos disse a muitos que estavam presentes: “Em verdade vos digo (cf. Lc 4,25) que todos os religiosos deveriam imitar este santo ho­mem Francisco, tal é a perfeição de sua santidade”.

Francisco e Domingos

O Tau na vocação franciscana

TauO Tau tem a forma da letra grega Tau (T) que é uma cruz.

As duas maiores influências diretas em Francisco, em relação ao Tau, foram os antonianos e o IV Concílio Laterano.

São Francisco tomou o Tau e seu significado dos antonianos. Eles eram uma comunidade religiosa masculina, fundada em 1095, cuja única função era cuidar dos leprosos.

Em seus hábitos era pintada uma grande cruz. Francisco tinha uma relação muito familiar com eles, porque trabalhavam no leprosário de Assis, no Hospital de São Brás, em Roma, onde Francisco esteve hospedado.
No princípio de sua conversão, Francisco encontrou os antonianos e seu símbolo do Tau. Mas, a influência mais forte que fez do Tau um símbolo tão querido para Francisco e pela qual ele se tornou sua assinatura, foi a do Concílio de Latrão.

Os historiadores geralmente admitem que Francisco estava presente nesse Concílio, no qual o Papa Inocêncio III fez o discurso de abertura, incorporando em sua homilia a passagem de Ezequiel (9,4) que diz que os eleitos, os escolhidos serão marcados com o sinal do Tau: “Percorre a cidade, o centro de Jerusalém, e marca com uma cruz na fronte os que gemem e suspiram devido a tantas abominações que na cidade se cometem” e acrescenta: “O Tau é a última letra do alfabeto hebraico e a sua forma representa a cruz, exatamente tal e qual foi a cruz antes de ser nela fixada a placa com inscrição de Pilatos. O Tau é o sinal que o homem porta na fronte quando – como diz o apóstolo – crucifica o corpo com os seus pecados quando diz: ‘Não quero gloriar-me a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo foi crucificado para mim, e eu para o mundo’ (…) Sejam, portanto, mestres desta cruz! Sejam os campeões do Tau!”

Quando Inocêncio III terminou sua homilia com “Sejam os campeões do Tau!“, Francisco tomou estas palavras como dirigidas a ele e fez do Tau seu próprio símbolo, o símbolo de sua Ordem, de sua assinatura; mandou pintá-lo em toda parte e teve grande devoção a ele até o fim de sua vida.

Simples e basicamente, o Tau representa a Cruz. Os Concílios da Igreja foram convocados para reformar a Igreja, cabeça e membros. Assim o grande tema da Reforma: pessoal, interior, conversão constante e mudança de vida. Aqueles que deviam comprometer-se com a conversão contínua, uma vida de constante penitência, deviam ser marcados com o Tau.

O Tau para Francisco é um sinal da certeza de salvação; é o sinal de universalidade da salvação e é o símbolo da conversão contínua.

Se você permite ser marcado com o Tau ou usa o Tau, você está dizendo que se comprometeu com a conversão contínua, isto é, com o tema da Espiritualidade Franciscana. Não que você esteja convertido de uma só vez, mas dia-a-dia, mês após mês, ano após ano, você conserva seu olhar fixo no Senhor como sua única meta e caminha em direção a ele com a mente indivisa (Carta S. Mary Margaret, out. 1989).

Fonte: Canção Nova

Inocêncio III