Missa solene de Santa Clara
Igreja Santo Antônio – 11 de agosto, às 19h

Clara viva

Pequena biografia

Irmã Marie Pascal, OSC

Clara, lemos algumas das cartas que você escreveu, seu testamento, vivemos “a forma de vida” que você compôs para nós e que você mesma não pode observar integralmente.  Como você se desenha aos nossos olhos?  Descubro sua existência  como uma paixão  no sentido literal e musical do termo.  Sim, uma paixão grave e belíssima em todos os seus movimentos.  Trágica, inverossímil mesmo,  com pitadas de humor como  Deus costuma fazer.  Se devesse se falar de música seria a de Heinrich Schütz com curtas pastorais ou ainda a música de câmara com três ou quatro instrumentos,  quem sabe árias de Bach para voz feminina  de beleza ao mesmo tempo selvagem e clássica.

Você nasceu no final do século XII, em 1193, no dia 18 de julho, costuma-se dizer, perto da Catedral de São Rufino, cujas rosáceas encantam os turistas de Assis. Provavelmente você foi concebida na volta de uma das peregrinações  que sua mãe fazia  à Terra Santa.  A vida estável que você levou não contradiz em nada  essa mentalidade de “peregrina e estrangeira”, que você reivindica, na esteira de Francisco.  Aliás, tudo normal para uma mulher que foi contemporânea do nascimento das comunas.  Como parece convir, os hagiógrafos escrevem mais a respeito de sua mãe, do que  de seu pai. Cavaleiro de boa cepa, teria ele estaria ele vivo no momento de sua partida da casa paterna?  Ninguém o sabe. Você parece ter  todas as qualidades de sua mãe. Distinta, empreendedora, eficiente, cultivada, com pendão para a caridade, com um gosto acentuado pela dimensão interior da existência. Duas irmãs suas virão alegrar  a morada senhorial. Catarina que Francisco batizará de “Inês”  no momento do afrontamento violento que iria  opor as duas à família em Santo Ângelo de Panzo e  Beatriz que vai ganhar São Damião dezessete anos mais tarde.

Será preciso logo mencionar  Francisco, o  “homem novo”.  A opinião pública  queria  que vocês tivessem se conhecido um ao outro desde a sua mais tenra infância.  Na verdade, ele é  onze anos mais velho do que você.  Há autores que afirmam que você estava “apaixonada”  por ele.  Será verdade?  Esta é uma pergunta meio  romântica…  Uma filha de cavaleiro e um filho da burguesia!  Em todo caso é graças a ele e aos seus pares que a sua família precisou buscar o exílio em Perugia,  ao menos por cinco anos… Francisco, esse revolucionário  com um itinerário de vida um tanto quanto movimentado,  salvo da prisão, líder de uma juventude ávida de prazer e depois penitente inopinado e fundador de comunidade…  Você tem outras preocupações, em particular com seu futuro.  Você sabe muito bem que Aquele a respeito do qual  sua Mãe tanto falou reclama o amor de seu coração.  Mais tarde você falará de Francisco como um apaixonado pelo Cristo. Você, na realidade, não  era menos do que ele…

Você vai se dando conta que o Evangelho reclama  suas energias, a conversão de sua existência.  Há um problema a ser resolvido:  como é que as coisas vão se passar? Como responder ao apelo do Senhor?  Será fundamental conversar com Francisco.  Marca-se um encontro.  Preparam-se as coisas.  Francisco viria com um de seus companheiros e você com uma amiga.   Toma-se o tempo necessário para a reflexão sobre o contexto todo e sua decisão é tomada.  Tudo foi bem pesado. Você está com  dezoito anos. Imediatamente fica combinada a saída de casa  para a noite  do Domingo de Ramos.  Era um bom momento para passar de um mundo para outro. Você sairá  sem prevenir, os frades virão ao seu encontro e a “conversão” será celebrada na Porciúncula, uma dessas capelas que Francisco reconstruíra com suas mãos.  Depois os frades haveriam de colocá-la protegida numa comunidade de beneditinas.  Até que… no dia seguinte… encontrada rapidamente a pista,  sua família chega, e com toda a fúria.  Você, naquele momento, como jovem penitente, tira o véu, mostra  a cabeça raspada e todos compreendem que se trata de uma decisão sem volta.  Dias depois será a vez de sua irmã caçula. O tio Monaldo, misteriosamente, quebra o braço:  não podia imaginar que suas sobrinhas fossem tão teimosas quanto ele.

E eis que nossas jovens da aristocracia estarão brevemente em São Damião, a igreja para a qual Francisco andou fazendo uma coleta de pedras.  Foi ali que, subindo no alto de uma parede ela anunciara, seis anos antes, cheio  de alegria e do Espírito Santo, a vinda de “senhoras”  de vida correta e luminosa.   São Damião… mínimo conforto; Evangelho vivido no dia a dia. Você haveria de ir decifrando com Francisco a gramática da pobreza.  Nesse momento se poderia colocar como fundo musical a pastoral do Messias de Haendel.  Desde que se comece a ouvir já os golpes do destino, os primeiros movimentos de uma sinfonia heroica que colore sua aventura, irmã Clara!  Um grande presente, o Crucifixo de São Damião.  Foi  ele, sabemos muito bem, que encarregou Francisco a que reconstruísse as paredes em ruína….Esse Crucifixo ocupa um imenso lugar,  com seu olhar cheio de interioridade, suas mãos pregadas, aquela bela postura de acolhimento e de envio.  E esse pequeno galo, no meio da coxa, que anuncia cada manhã a infidelidade perdoada e a incrível novidade da vida que começa.

Com o entusiasmo dos começos,  moças afluem a São Damião.  Amigas de castelos vizinhos, meninas da burguesia, mulheres do povo, em suma,  penitentes em busca…  Todas dizem: era o que lhes faltava. E você,  Clara, com seu discernimento perspicaz, você as acolhia…. ou as orientava para que fossem buscar respostas em outros lugares.  Francisco leva a sério sua missão e escreve para vocês  “um forma de vida”…  Nada de detalhes inúteis, mas motivos para viver.  “Inequivocamente foi o Espírito que as convocou. Vocês optaram por servir a Deus Pai e viver o Evangelho tal qual ele soa!  Eu, Frei  Francisco, juro que as ajudarei de todo o coração e com todas as minhas forças, por mim mesmo e por meus irmãos”.  Isso vos basta!  Mais tarde, você vai se lembrar nos tempos heroicos  a emoção de Francisco  quando as via comendo o pão duro  e  dormido que traziam os frades.  Naquele momento, vocês eram inteiramente irmãs deles.  Mais tarde você escreveu:  “Vendo o bem-aventurado Francisco que nós, embora frágeis e fisicamente sem força, não  tínhamos medo de nenhuma privação, pobreza, trabalho, tribulação, nem humilhação, nem desprezo do mundo, e até julgávamos tudo isso as maiores delícias, Francisco tomado de emoção e de alegria escreveu para nós  uma  forma de vida”.   Naquele tempo você já sabia o que significa viver a perfeição do Evangelho.  Neste estava a fonte da sua alegria, como da alegria de Francisco.

Esse era o sentido puro e simples  do famoso  “privilégio da pobreza”, que  veio a se transformar numa espécie de “curiosidade”  jurídica. Ele merece explicação. Você pedia para sua comunidade simplesmente o direito existir  “sem garantias”. Você tomou a decisão de vender os seus bens e de distribuir o resultado aos pobres. Você queria viver  sem terrenos que dessem dinheiro, para seguir os traços do Cristo pobre. Esse era o segredo de seu projeto:  vida comum, trabalho manual dia a dia e esmolas, opção pela pobreza.  Nada de frases, mas uma convicção:  Deus ou o dinheiro, ser ou ter. Você chegou até  mesmo a escrever em uma de suas cartas: “Quem se apega ao que possui, perde o fruto do amor”.  Apegar-se ao que se tem e não estar mais aberto para receber o que Deus dá”.  A vida monástica feminina, então vigente,  tinha fundamentos diferentes:  dispor de propriedades para que as monjas não experimentassem inquietações a respeito do dia de amanhã e, assim, mais despreocupadamente,  rezar com tranquilidade. Essa não era sua maneira de ver as coisas. Você vai escrever ao Papa.  Há de fazê-lo com diplomacia usando a linguagem dele. Antes de você, as religiosas solicitavam  “privilégios de propriedades”;  você pede um “privilégio de pobreza”.  Inocêncio  III  tem bom faro.  Ele mesmo escreve um rascunho de um documento….  Nesse momento, você abandona os caminhos batidos e começa a guerra…

Como era a vida em São Damião?  As irmãs rezam e trabalham. Você tinha aprendido isto de Francisco e transmitiu às suas irmãs. Evidentemente  há tempos inteiramente consagrados  ao colóquio  com Deus.  Como os frades, vocês rezavam o Ofício:  hinos, salmos, tempos de escuta da Palavra de Deus, intercessões alternam,  ritmam  o tempo nesse espaço exíguo que a tradição  chamava de  “coretto”,   mas que também é o lugar do coração. Você gosta de  beber da água fresca da Palavra de Deus  e conserva em sua memória passagens que dizem muito. O Cântico dos Cânticos  alimenta seu diálogo com o Bem Amado, as palavras de Lucas e de Mateus exprimem maravilhosamente seus laços íntimos com a pobreza. Você manifesta  uma grande paixão pela vida dos mártires, ouvida todos os dias nas matinas, com preferência especial pela mártir Inês.

Em São Damião, pois,  o tempo é cadenciado com o ritmo da oração litúrgica.  Trabalho, no entanto, também é oração.   Realizado em silêncio, excetuando-se as palavras indispensáveis  e ditas com parcimônia e com voz baixa, permitem o colóquio constante com o Senhor.  Esse seu jeito e de Francisco tem tudo a ver com a maneira da oração dos Padres do Deserto. Um coração entregue ao Espírito Santo e unificado pela reta e pura intenção  não se desvia de Deus durante o trabalho das mãos. Ao contrário, liberto da ociosidade, o ser inteiro deseja o Senhor. Tem nele os olhos postos. Ama-o e estabelece com ele o diálogo da oração.  Tudo se fazendo no cotidiano das coisas cotidianas.

A Igreja romana estava muito preocupada  com as comunidades que queriam viver como vocês viviam em São Damião.  Seu grande amigo,  o cardeal Hugolino que é ao mesmo tempo protetor dos frades e de sua comunidade se pôs a redigir  Constituições  destinadas a explicitar a Regra de São Bento que,  de fato,  lhes foi imposta desde o começo. Mesmo nutrindo uma grande estima pela forte personalidade do cardeal, essas Constituições, desde o começo não lhe agradaram. Com tantos pormenores regulamentados, careciam de  sopro vital. Você  nelas  não encontra  os dilatados horizontes abertos por Frei Francisco.  As ditas Constituições nada dizem a respeito de dois assuntos que você tem a peito:  os laços com os frades e o compromisso da pobreza.

Como foi seu relacionamento com a Igreja? Foi movimentado. Você tinha verdadeira veneração pelo cardeal-protetor  Hugolino, que  deveria receber o encargo de todas as  Igrejas com o nome de  Gregório IX.  Com idade que tinha podia ser seu avô.  Assistiu aos seus começos e admirava a coragem e a tenacidade de vocês.  Tinha receio que a experiência de São Damião viesse a se generalizar.  Foi por isso que ele redigiu  as tais  Constituições  destinadas a unificar  os grupos  de penitentes que desejavam viver como você e suas irmãs.

No mesmo ano em que  foram publicadas as  Constituições o referido documento, Hugolino veio celebrar a Páscoa com vocês. Vocês falaram do Cristo vivo no meio de nós, maravilhosamente presente em sua Eucaristia.  Tendo sido obrigado de retomar suas atividades, ele lhe escreveu uma carta calorosa  na qual  ele a designa  como “a mãe de sua alma”.  Mesmo partilhando seu afeto, nada a impede  de se opor a ele quando está em jogo o sentido de sua vocação.  Tão logo ele fora eleito Papa, escreveu à sua comunidades estas palavras cheias de  calor:  “No meio de amarguras e angústias que nos afligem sem cessar,  vocês são  nossa consolação… Porque  vocês vivem um só espírito com o Cristo, pedimos que sempre se lembrem de nós em sua oração, que ergam em prece suas mãos para que  o Senhor seja a nossa força”.  Nesta época, o Santo Padre tinha 83 anos e foi obrigado  a fugir de Roma,  cidade palco de  tumultos,  para se refugiar em Rieti.  Nesse quadro de revolta e de fome, pouco antes, ele tinha  insistido que você aceitasse propriedades  e ele mesmo propunha consegui-las para vocês. As irmãs se lembram  ainda do diálogo. No fim, o Papa lança a última cartada: “Se é o voto de pobreza que causa dificuldade, eu posso dispensá-lo!”  A resposta veio imediatamente  e diz  bem aquilo que você é:  “Santíssimo Padre, nunca gostaria que me tirassem a alegria de seguir  Jesus Cristo!”  Esse foi o teor das conversas que vieram a ter.

 

A grande novidade de sua “forma de vida”  consiste nessa atmosfera dos relacionamentos fraternos. Você gosta de lembrar  às suas irmãs aquilo que as motivou a tudo deixarem e a se voltarem totalmente para Cristo.  Sempre juntas… juntas na oração, no trabalho, no dormitório.  A repartição dos espaços em São Damião evoca tal realidade. Vocês chegaram a ser cinquenta… Um chamado comum  convocou-as a viverem juntas.  Vocês são uma parábola viva desse viver junto.

No meio das irmãs você é aquela que serve. Não gosta de mandar, segundo os depoimentos as irmãs no Processo de canonização. Você está sempre pronta a realizar as tarefas menos atraentes  Cuida das irmãs doentes: lava-lhes os pés,  ministra-lhes os remédios,  tenta satisfazer seus mínimos desejos.  Circulam muitas histórias a esse respeito.  Diz-se que uma irmã não queria comer. Foram feitas propostas apetitosas, dadas ordens.  Nada. Não sabendo mais o que dizer, com o fervor do desespero, você  pergunta à doente: “O que poderia bem te agradar?”  Ousada e brincalhona ao mesmo tempo, a irmã  faz um gracejo:  “Pois bem, quero uma truta de Topino e um doce de  Nocera”.  A irmã sabia  que você seria incapaz de realizar esse pedido. Você se pôs de joelhos e começou a rezar.  Alguém toca a sineta em hora tardia.   Sob uma chuva  diluviana não é que chega um mensageiro desconhecido e trazendo uma bandeja coberta com uma toalha nos quatro cantos e pede que lhe seja entregue.  A irmã porteira apresenta-lhe aquele estranho embrulho.  Quando ele é aberto lá estão a truta e o doce.  Milagre da ternura fraterna….  Poderíamos aqui mencionar muitos outros episódios….

Em São Damião, vocês devem  ter tido uma horta com legumes e frutas. O fruto do quintal não bastava. Dois ou três irmãos que moravam do outro lado da casa de vocês  esmolavam para vocês.  Traziam aquilo que lhes era generosamente dado pelas pessoas.  Sempre se fala de certo Frei Bentivenga a quem você pediu que fosse buscar  óleo porque não havia mais em casa.  O frade pede o recipiente. Você o lavou e o colocou no costumeiro lugar para que fosse levado pelo dito frade.  Seu desejo, Clara, foi satisfeito antes do tempo: a vasilha já estava cheia de óleo antes que o frade saísse.  Nem preciso  dizer que as irmãs e o frade ficaram muito admirados.

Posteriormente, quando o relacionamento com os frades  parecia conhecer tensões (a profissão de irmão esmoler nem sempre era bem entendida), você pediu que suas irmãs  fizessem esse delicado trabalho.  Você mesma as prepara: elas serão mensageiras de esperança, irradiarão a paz que unia vocês todas e prometiam a todos a oração do mosteiro…  Quando elas voltavam você gostava de  acolhê-las e servi-las.

Pelo que eu disse aqui  talvez alguém pudesse pensar que a vida comunitária  não comporta conflitos?  Em sua  “forma de vida”, você previu  muito realisticamente que poderiam haver momentos de confronto.  Se a desavença opunha duas irmãs, por gestos ou palavras, a que estivesse na origem de tal desavença deveria pedir perdão e pediria a intercessão daquela que ofendeu. A irmã ofendida perdoará de todo o coração.  As duas irmãs reconciliadas poderiam então rezar juntas com o coração em paz.  Por detrás desta bela passagem da Regra se pode  pressentir uma grande experiência.  Para tanto, acrescento eu, era necessário ser mulher.

Houve a páscoa de Frei Francisco na tardinha de 3 de outubro  de 1226.  Os frades fizeram o relato dos últimos momentos do santo (na verdade, mesmo em vida, ela já era considerado santo).  Quando o cortejo fúnebre fez o desvio de seu caminho passando  por São Damião,  você venerou as chagas preciosas de seu pai e seu irmão  muito querido com todo o seu coração!  Depois, ele se fez presente de uma outra maneira.  Você passou a ser testemunha das origens e nem sempre era fácil responder aos frades que vinha pedir lhe conselhos. Todos sabiam que você  não queria julgar, mas refletir como num espelho essa “ senhora pobreza,  que Francisco tanto havia amado.

Quando Francisco morreu, você tinha  33 anos. Você atravessou essa provação com galhardia.  Aliás,  é desse  tempo que data sua doença  da qual não se conhece a natureza. Corajosamente você continuou a caminhada. Dois presentes  recebeu de Francisco: o Cântico das Criaturas e  a exortação que ele compôs para vocês  às vésperas de sua morte: “Ouvi, pobrezinhas, pelo Senhor chamadas, que de muitas partes e províncias fostes congregadas. Vivei sempre na verdade, para morrerdes na obediência. Não olheis a vida de fora, porque a do espírito é melhor. Eu vos rogo com grande amor: com discernimento devereis usar as esmolas que o Senhor vos dá. As que estão por doenças agravadas e outras que por elas estão fatigadas, umas e outras suportai-o em paz  pois essa fadiga terá alto preço, já que cada uma será rainha no céu  coroada com a  Virgem Maria”.  Para falar dessa maneira  era preciso ter experimentado a doença.  Francisco  queria que você e suas irmãs  usassem as esmolas com cuidado. Quando a gente não pode mais trabalhar, na verdade, a dependência é sempre maior e cada vez menos uma simples palavra, mas uma realidade   dura a viver.

Sua mãe  Ortolana  foi viver com você em São Damião.  Depois chegou também sua irmã  Beatriz. O serviço do Senhor  unia vocês três e lhes dava alegria.

De toda a Europa  chegavam pedidos de bispos ou de grupos evangélicos para que se fundassem comunidades de irmãs,  sobretudo nos países em que os frades  haviam  criado uma fraternidade ou falado  de nosso gênero de vida.  Assim, como  um “fuga”  executada no órgão em que o mesmo tema não cessa de recomeçar em sucessivas transposições, você enviava algumas irmãs de Assis ou de outras cidades italianas.  Inês teve que deixar Assis e esteve por longos anos em Florença, tendo voltado a São Damião apenas poucos anos antes de você morrer. Era necessário escolher as irmãs e prepará-las.  Multiplicavam-se as colmeias…

A fundação que parece ter tocado profundamente seu coração  foi a de Praga na região da Boêmia. Você havia recebido cartas  da princesa Inês da Boemia. Esta estava empenhada em descartar o pedido de sua mão em casamento por parte do Imperador Frederico II.  Parece que esse casamento tinha mesmo um certo patrocínio  do Papa. Você, Clara, através de suas cartas,  animou a princesa a se tornar uma  irmã pobre. Você parecia se identificar com esta mulher inteligente e ardorosa, mais nova do que você uns dez anos.  Em suas cartas para ela, você transmitiu o melhor que tinha em seu interior e em seu coração. Você descreveu para ela a pobreza de São  Damião e também convidou a que ela fosse prudente na questão do jejum.  Em Pentecostes de  1234, momento em que ela recebeu o hábito da penitência em Praga,  seu coração batia tão forte em seu peito quanto nos dias daquele Domingo de Ramos  por ocasião de sua saída da casa paterna.  Inês havia conseguido para seu mosteiro em Praga  o privilégio da pobreza.  Provavelmente foi a pedido dela que você colocou por escrito seu propósito de  vida em pobreza.

A disponibilidade  para com a generosidade do Senhor é o fundamento da vida fraterna: esta foi sempre a sua convicção.  Para solidificar a vida de São Damião era importante um texto inspiracional: a Regra.  Você não se sentia no direito de deixar as irmãs num clima de incerteza.  Parecia-lhe importante  iluminar o horizonte dessas suas estimadas irmãs.   Depois de anos em que você comparava todas  as regras da vida religiosa, ou seja, a regra de São Bento, a de Hugolino e a do Papa de Inocêncio IV, foi amadurecendo o projeto que você tinha em mente.  O texto da Regra que Frei Francisco havia feito para seus frades estava à sua disposição.  Tratava-se agora de adaptá-lo a um vida estável vivida por mulheres e acrescentar outros tópicos novos. Assim, como que de um só impulso, você ditou a “forma de vida”.  Você transmitia, por assim dizer, as suas entranhas nos capítulos da Regra. Esta foi como que um poema que  fluía de seus lábios, o cântico da vida pobre em fraternidade.

As irmãs recolheram seu testamento como uma oração eucarística.  Tudo vinha à mente com incomparável nitidez: a profecia de Francisco  ganhava plena luz.  Aquelas palavras meio misteriosas  proclamadas aos quatro ventos em São  Damião  ganhavam sentido e encontravam confirmação. De toda a eternidade  você foi criada, chamada, santificada para viver nesse lugar  uma existência reta e  luminosa para o louvor do Pai cheio de ternura.  Os mosteiros todos, espalhados, em todo o mundo  atestam a profecia de Francisco.  Irmãs pobres, vocês foram escolhidas, reunidas  para a alegria da Igreja e a salvação de seus irmãos em humanidade.  O filme da sua vida passava diante de seus olhos  como uma fonte que corre e vai fecundar o universo. Você tinha todas as condições de cantar o  Magnificat  dos pobres. O olhar do seu Senhor  fazia vibrar seu ser ao mesmo tempo despojado e rico.

O dia 11 de agosto chegou como um  raio.  Frei Leão chorava. Frei Junípero, no entanto,  achou ainda alguma coisa nova para lhe ensinar a respeito do amor do Senhor.  Como reconhecimento veio finalmente o sim da Igreja.  A  “forma de vida”  estava aprovada e as suas irmãs podiam viver o que você não pôde viver com toda liberdade.  O próprio Papa veio visitá-la  como que pedindo perdão por ter demorado tanto na aprovação.  Você com um olhar cheio de eloquência pediu o perdão sacramental.  As irmãs se perguntavam como poderiam viver sem você.  Elas tinham razão de se inquietar porque não viveram como você o elã  da sua vocação na Igreja.  Era preciso quase pensar no impossível.  Deus sabe que isso não é tão fácil todos os dias.

ClaraNós também,  Clara, lhe pedimos que permaneça ao nosso lado no caminho da busca da felicidade, no meio de pedregulhos e da poeira.

Leve, você saltou e nos chama a seguir o  Cristo pobre e humilde para nossa salvação. 

Nós, no entanto,  sentimos medo. 

Estenda a sua mão  e não nos largue.

Que guardemos em nossa memória seu projeto de vida pobre. 

No coração da Igreja e para a alegria de todos, como você na delirante espera daquele que vem!