Em geral aparece solta nos manuscritos, sendo mais comum nos ligados à coleção de Avinhão. Quase sempre se diz que Francisco rezou essa oração quando o Crucificado pediu que reformasse sua casa. É conhecido o texto italiano como original. Alguns quiseram pôr em dúvida sua autenticidade, perguntando quando São Francisco a teria composto e escrito. Hoje se pensa, geralmente, que ele já estava fazendo essa oração no tempo anterior a São Damião: e foi a resposta espontânea que lhe veio aos lábios ou ouvir Jesus. É interessante que Frei Marcos de Lisboa já apresenta uma tradução em português em 1556 e até diz que o Crucifixo falou depois que Francisco rezou a oração.


Sumo, glorioso Deus,

Ilumina as trevas do meu coração

e dá-me fé direita, esperança certa e caridade perfeita,

(bom) senso e conhecimento, Senhor,

para que faça teu santo e verdadeiro mandamento.

Esta oração de São Francisco não estava nem nos “Opúsculos” de Wadding (1623) nem entrou nas edições críticas de Lemmens e Boehmer (1904). Mas foi aceita por Esser (1976). O próprio Wadding colocou-a nos seus Annales Minorum (1625), dizendo que copiara uma informação de Frei Mariano de Florença. Também foi encontrado um manuscrito do sec. XV que dá um testemunho paralelo e muito interessante: A exortação foi escrita pelo próprio São Francisco em uma tábua que servia de piso do altar em um seu eremitério. Ele mandou pintar algumas criaturas na tábua e depois escreveu o texto. Mais tarde tiraram a tábua e a expuseram como um quadro. Frei Mariano viu e copiou. A outra cópia (códice N7) também foi feita assim.


Temei o Senhor e prestai-lhe honra (Ap 14,7)!

O Senhor é digno de receber o louvor e a honra (cf. Ap 4,11).

Vós todos que temeis o Senhor, louvai-o (cf. Sl 21,24)!

Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo (Lc 1,28.30).

Louvai-o, céu e terra (cf. Sl 68,35)!

Louvai o Senhor, ó rios todos (cf. Dn 3,78)!

Bendizei o Senhor, ó filhos de Deus (cf. Dn 3,82)!

Este é o dia feito pelo Senhor (cf. Sl 117,24), exultemos e nos alegremos nele! Alelúia, alelúia, alelúia! Rei de Israel (cf. Jo 12,13)!

Tudo que respira dê louvor ao Senhor (Sl 150,6)!

10 Louvai o Senhor porque é bom (cf. Sl 146,1)! Todos vós que ledes estas palavras, bendizei o Senhor!

11 Bendizei o Senhor, ó criaturas todas (cf. Sl 102, 22)!

12 Vós todos, pássaros do céu, louvai o Senhor (cf. Sl 148,7-10)!

13 Todas as crianças, louvai o Senhor!

14 Jovens e moças, louvai o Senhor (cf. Sl 148, 12)!

15 Digno é o Cordeiro que foi imolado (cf. Ap 5,12) de receber o louvor, a glória e a honra.

16 Seja bendita a santa Trindade e a indivisa Unidade (liturgia)!

17 São Miguel arcanjo, defendei-nos no combate (liturgia)!

Não há dúvidas quanto à autenticidade desses louvores que São Francisco rezava antes das horas canônicas: estão em muitos manuscritos. A oração final é certamente original dele. Os outros louvores, como são feitos com textos litúrgicos muito conhecidos, em geral nem foram copiados por inteiro nos manuscritos. Todo mundo os sabia de cor e os copistas muitas vezes se limitaram a dar as palavras iniciais. Por isso é difícil reconstituir com segurança o texto original.

Esta oração foi chamada de “invitatório franciscano”, porque São Francisco a compôs para preparar-se para o Ofício Divino, em cada uma das sete vezes ao dia que se punha a rezá-lo. É muito interessante a estrutura ternária em homenagem à Santíssima Trindade.


Começam os louvores que o beatíssimo pai nosso Francisco organizou e rezava em todas as horas do dia e da noite e antes do ofício da bem-aventurada Virgem Maria, começando assim: Santíssimo Pai nosso que estás nos céus etc. com o Glória. Depois digam-se os louvores.

Santo, santo, santo é o Senhor Deus todo-poderoso, que é e que era e que virá (cf. Ap 4,8).

Louvemo-lo e exaltemo-lo por toda a eternidade! (cf. Dn 3,57).

“Digno sois, Senhor, nosso Deus, de receber o louvor, a glória e a honra e o poder” (cf. Ap 4,11).

Louvemo-lo e exaltemo-lo por toda a eternidade!

Digno é o Cordeiro que foi imolado, de receber o poder e a riqueza, a sabedoria e a fortaleza, a honra, a glória e a bênção (Ap 5,12).

Louvemo-lo e exaltemo-lo por toda a eternidade!

Bendigamos ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo! (breviário romano).

Louvemo-lo e exaltemo-lo por toda a eternidade!

Obras do Senhor, bendizei todas o Senhor! (Dn 3,57).

Louvemo-lo e exaltemo-lo por toda a eternidade!

Louvai o nosso Deus, vós todos, seus servos, vós que o temeis, pequenos e grandes! (cf. Ap 19,5).

Louvemo-lo e exaltemo-lo por toda a eternidade!

Celebrem-no em sua glória os céus e a terra e (cf. Sl 68,5).

Louvemo-lo e exaltemo-lo por toda a eternidade!

toda criatura que há na terra, no céu, debaixo da terra e no mar, e tudo quanto nele existe! (cf. Ap 5,13).

Louvemo-lo e exaltemo-lo por toda a eternidade!

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.

Louvemo-lo e exaltemo-lo por toda a eternidade!

10 Assim como era no princípio, agora e sempre e pelos séculos dos séculos.

Louvemo-lo e exaltemo-lo por toda a eternidade!

11 Onipotente, santíssimo, altíssimo e soberano Deus, que sois todo o bem, o sumo bem, a plenitude do bem, que só vós sois bom (cf. Lc 18-19), nós vos tributamos todo o louvor, toda a glória, toda a ação de graças, toda a exaltação e todo o bem. Assim seja! Assim seja! Amém.

É uma preciosa coleção de quinze Salmos e uma antífona de Nossa Senhora que São Francisco fez para celebrar todos os dias, paralelamente ao Ofício Divino, o mistério de Jesus Cristo. Treze dos Salmos são elaboração dele, usando principalmente trechos de Salmos bíblicos. Esse “Ofício” não está contido em muitos pergaminhos medievais, mas não há dúvidas quanto a sua autenticidade. Os poucos pergaminhos não davam um título. Wadding inventou esse de “Ofício da Paixão do Senhor”, que foi aceito por Lemmens e Boehmer. Na realidade, São Francisco celebra também a Páscoa e todo o mistério de Jesus. Alguns autores achavam que era um texto sem importância, porque feito com retalhos de Salmos conhecidos. Mas é justamente aí que está sua importância: a seleção feita pelo Santo. A Legenda de Santa Clara (30) diz que ela “aprendeu o Ofício da Cruz feito por São Francisco e o recitava com igual afeto”. É um dos melhores escritos para demonstrar a identificação de Francisco com Jesus Cristo.


Começam os Salmos que foram organizados pelo beatíssimo pai nosso Francisco para reverenciar, recordar e louvar a Paixão do Senhor. Que devem ser ditos em todas as horas do dia, apenas um. E começam nas Completas da Sexta-Feira Santa, porque nosso Senhor Jesus Cristo foi traído e preso naquela noite. E note que assim dizia este ofício o bem-aventurado Francisco: Primeiro dizia a oração, que o Senhor e Mestre nos ensinou: Santíssimo Pai nosso, etc. com os louvores, isto é Santo, Santo, Santo, como está acima. Terminados os louvores com a oração, começava esta antífona, a saber: Santa Maria. Primeiro dizia os Salmos de Santa Maria, depois dizia os outros Salmos que tinha escolhido e, no fim de todos os Salmos, que dizia, recitava os Salmos da paixão. Terminado o Salmo, dizia esta antífona, isto é, Santa Maria Virgem. Terminada a antífona estava acabado o ofício.

Santa Virgem Maria, não nasceu nenhuma semelhante a vós entre as mulheres neste mundo,

filha e serva do altíssimo sumo Rei e Pai celeste, Mãe do nosso santíssimo Senhor nosso Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo:

Rogai por nós com São Miguel Arcanjo e todas as virtudes dos céus e todos os santos junto a vosso santíssimo dileto Filho, Nosso Senhor e Mestre!

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre, Amém!

Note que a esta antífona acima é dita em todas as horas, e se diz no lugar da Antífona, do capítulo, do hino, do versículo e da oração; e nas Matinas e em todas as horas semelhantemente. Não dizia mais nada nessas horas a não ser a antífona com os seus Salmos.

Parte I: Para o tríduo sacro da Semana Santa e para as férias do ano

Salmo I (Completas)

Salmo II (Matinas)

Salmo III (Prima)

Salmo IV (Terça)

Salmo V (Sexta)

Salmo VI (Noa)

Salmo VII (Vésperas)

Parte II: Para o Tempo Pascal (a partir das Completas de Sábado Santo)

Salmo VIII (Completas)

Salmo IX (Matinas)

Salmo III (Prima)

Salmo IX (Terça)

Salmo IX (Sexta)

Salmo IX (Noa)

Salmo VII (Vésperas)

Parte III: Para os Domingos e as festas principais

Começam outros Salmos, que também foram organizados pelo nosso beatíssimo pai Francisco, e que devem ser ditos no lugar dos Salmos sobreditos da paixão do Senhor nos dias de Domingo e nas festas principais desde a oitava de Pentecostes até o Advento e da oitavada Epifania até a Quinta-feira da Ceia do Senhor, mas que entendas bem, que se digam no próprio dia em que é Páscoa do Senhor.

Salmo VIII (Completas)

Salmo IX (Matinas)

Salmo III (Prima)

Salmo X (Terça)

Salmo XI (Sexta)

Salmo XII (Noa)

Salmo VII (Vésperas)

Parte IV: Para o Tempo do Advento do Senhor

Começam outros salmos, que também foram organizados pelo nosso beatíssimo pai Francisco, que devem ser ditos no lugar dos salmos ditos acima da paixão do Senhor desde o Advento do Senhor até a vigília do Natal, e não mais.

Salmo XIII (Completas)

Salmo XIV (Matinas)

Salmo III (Prima)

Salmo X (Terça)

Salmo XI (Sexta)

Salmo XII (Noa)

Salmo VII (Vésperas)

Note também que não se diz o Salmo inteiro, mas até o versículo: Trema ao seu olhar a terra inteira; deves entender bem para que se diga todo o versículo: Oferecei vossos corpos. Acabado esse versículo, diz-se aí: Glória ao Pai, e assim se diz nas Vésperas todos os dias desde o Advento até a vigília do Natal.

Parte V: Para o Tempo do Natal do Senhor até a Oitava da Epifania

Salmo XV

Note que este Salmo se diz desde o Natal do Senhor até a oitava da Epifania em todas as horas. Se alguém quiser dizer este ofício do bem-aventurado Francisco, assim o diga: primo diga o Pai nosso com os louvores, isto é: Santo, santo, santo. Acabadas as Laudes com a oração acima, comece a antífona: Santa Virgem Maria com o Salmo, que foi estabelecido para cada hora do dia e da noite. E o diga com grande reverência.

Na conclusão do ofício, o bem-aventurado Francisco sempre dizia:

Bendigamos ao Senhor Deus vivo e verdadeiro: prestemos-lhe sempre a Ele o louvor, a glória, a honra, a bênção e todos os bens. Amém. Amém. Faça-se. Faça-se.

Houve muitas discussões a respeito deste Escrito. Dizia-se que, naquele tempo, eram muito comuns essas paráfrases sobre o Pai-nosso, aliás conhecidas desde Orígenes e outros santos Padres. Na realidade, ainda não foi descoberto nenhum texto de outros autores realmente parecido com este de Francisco. Não é uma exposição sobre o Pai-nosso, é uma oração ampliada, em que ele vai acrescentando tudo que tem no coração. Também não faz parte dos Louvores para todas as horas, como alguns afirmavam e Esser esclareceu definitivamente…


Ó santísimo Pai nosso: criador, redentor, consolador e salvador nosso.

Que estais nos céus: nos anjos e nos santos, iluminando-os para o conhecimento, porque vós, Senhor, sois luz; inflamando-os para o amor, porque vós, Senhor, sois amor; morando neles e plenificando-os para a bem-aventurança, porque vós, Senhor, sois o sumo bem, eterno, do qual vem todo bem, sem o qual não há nenhum bem.

Santificado seja o vosso nome: fique clara em nós a vossa notícia, para que conheçamos qual é a largura (cfr. Ef 3,18) de vossos benefícios, a extensão de vossas promessas, a sublimidade da majestade e a profundidade dos juízos.

Venha nós o vosso reino… para que vós reineis em nós pela graça, e nos façais chegar a vosso reino, onde a visão de vós é manifesta, o amor por vós é perfeito, vossa companhia é feliz, e há um saborear sempiterno de Vós.

Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu: para que vos amemos de todo coração (Lc 10,27), pensando sempre em vós, com toda a alma, desejando sempre a Vós, com toda a mente dirigindo sempre todas as nossas intenções a Vós, buscando em tudo a vossa honra, e, com todas as nossas forças, destinando todas as nossas forças e os sentidos da alma e do corpo para o serviço do vosso amor e não para outra coisa; e amemos a nossos próximos como a nós mesmos, arrastando-os todos para o vosso amor com toda força, alegrando-nos pelos bens dos outros como pelos nossos e compadecendo-nos com eles nos males, e não fazendo a ninguém nenhuma ofensa (cf. 2Cor 6,3).

O pão nosso de cada dia: vosso dileto Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, nos dai hoje, a fim de lembrar e reconhecer e reverenciar o amor que teve por nós bem como tudo o que por nós falou, realizou e sofreu.

E perdoai-nos as nossas ofensas por vossa inefável misericórdia, pela força da paixão de vosso dileto Filho, e pelos méritos e intercessão da beatíssima Virgem Maria e de todos os vossos eleitos.

Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e o que nós não perdoamos totalmente, fazei vós, ó Senhor, que o perdoemos plenamente, para que por vós amemos de verdade os nossos inimigos e intercedamos por eles devotamente diante de Vós, a ninguém pagando o mal com o mal (cf. 1Ts 5,15) e em tudo procuremos ser proveitosos em Vós.

E não nos deixeis cair em tentação oculta ou manifesta, repentina ou importuna.

10 Mas livrai-nos do mal passado, presente e futuro. Amém.

Este texto e o seguinte estão nos dois lados de um pergaminho de uns 10 X 14 cms. com a letra original do Santo. O pergaminho está guardado em um relicário, na basílica de Assis, pelo menos desde 1338. Depois do Cântico de Frei Sol, foram os escritos que mais mereceram estudos dos especialistas. É interessante ler 2Cel 49 (e o paralelo LM 9,9) para conhecer sua história. A bênção, muito conhecida, é uma adaptação de Nm 6,24-26…


O Senhor te abençoe e te guarde; mostre sua face para ti e tenha misericórdia de ti.

Volte seu rosto para ti e te dê a paz (Nm 6,24-26).

O Senhor te abençoe, Frei Leão (cfr. Nm 6,27).

O texto autógrafo (atrás do bilhete a Frei Leão) está um pouco estragado pelo uso, mas o que nele não pode ser lido completa-se pela ampla tradição dos manuscritos medievais. É uma das expressões mais bonitas e arrebatadas das orações de louvor de São Francisco e de seu amor ao Deus Trindade. Esta oração foi escrita pouco depois que São Francisco recebeu os estigmas no Alverne (cfr. 2 Cel 49).


Vós sois santo, Senhor Deus único, que fazeis maravilhas (Sl 74,15).

Vós sois forte, vós sois grande (cf. Sl 85, l0), vós sois altíssimo, vós sois rei onipotente, vós Pai Santo (Jo 17, 11), rei do céu e da terra (cf. Mt 11, 25).

Vós sois trino e uno, Senhor Deus dos deuses (cf. Sl 135, 2), vós sois o bem, todo bem, o sumo bem, Senhor Deus vivo e verdadeiro (cf. 1Ts 1, 9).

Vós sois amor, caridade; vós sois sabedoria, vós sois humildade, vós sois paciência (Sl 70, 5), vós sois beleza, vós sois mansidão, vós sois segurança, vós sois descanso, vós sois gozo, vós sois nossa esperança e alegria, vós sois justiça, vós sois temperança, vós sois toda nossa riqueza e satisfação.

Vós sois beleza, vós sois mansidão, vós sois protetor (Sl 30, 5), vós sois guarda e defensor nosso; vós sois fortaleza (cfr. Sl 42, 2), vós sois refrigério.

Vós sois nossa esperança, vós sois nossa fé, vós sois nossa caridade, vós sois toda doçura nossa, vós sois nossa vida eterna:
Grande e admirável Senhor, Deus onipotente, misericordioso Salvador.

As Fontes, desde 2Cel 198 e EP 55 falam da grande devoção de São Francisco por Nossa Senhora. Esta “saudação”, que talvez fosse melhor chamar de “lauda” não consta nos pergaminhos do sec. XIII, embora seja abundantemente testificada a partir do sec. XIV. Mas nunca ninguém colocou em dúvida sua autenticidade. A ideia que Nossa Senhora é uma “Virgem feita igreja” baseia-se na teologia patrística, que alimentava a liturgia conhecida e vivida por São Francisco. Muitos manuscritos escreveram “virgem perpétua”, mas o pensamento da lauda está construído em cima do “Virgem feita igreja”…


Ave Senhora, Rainha santa, santa Mãe de Deus Maria, que és virgem feita Igreja.

E escolhida pelo santíssimo Pai do céu, que Ele consagrou com seu santíssimo dileto Filho e com o Espírito Santo Paráclito,

na qual esteve e está toda a plenitude da graça e todo bem.

Ave, palácio dele; ave tabernáculo dele; ave casa dele.

Ave veste dele: ave serva dele; ave mãe dele.

E vós todas santas virtudes, que pela graça e iluminação do Espírito Santo sois infundidas nos corações dos fiéis, para que os façais de infiéis fiéis a Deus.

A primeira referência a este escrito está em 2Cel 189, onde recebe o nome de “Louvores sobre as virtudes”. Mas a sua presença é abundante nos códices medievais e não há nenhuma dúvida da autenticidade. É típico de Francisco chamar as virtudes de irmãs ou senhoras e mais típico ainda o seu uso das palavras corpo, carne, espírito e mundo. Vários manuscritos ligam este escrito à Saudação à Virgem Maria, falando em “virtudes com as quais foi ornada a Santa Virgem e deve ser ornada a alma”.


Salve, rainha sabedoria, o Senhor te guarde por tua irmã, a pura simplicidade!

Senhora santa pobreza, o Senhor te guarde por tua santa irmã, a humildade!

Senhora, santa caridade, o Senhor te guarde por tua santa irmã, a obediência!

Santíssimas virtudes todas, guarde-vos o Senhor, de quem procedeis e vindes a nós!

Não existe no mundo inteiro homem algum em condições de possuir uma de vós, sem que ele morra primeiro.

Quem possuir uma de vós e não ofender as demais, a todas possui;

e quem a uma ofender, nenhuma possui e a todas ofende (cfr. Iac 2,10).

E cada uma por si destroe os vícios e pecados.

A santa sabedoria confunde a Satanás e todas as suas astúcias.

10 A pura e santa simplicidade confunde toda a sabedoria deste mundo (cfr. 1Cor 2,6) e a prudência da carne.

11 A santa pobreza confunde toda a cobiça e avareza e solicitudes deste século.

12 A santa humildade confunde a soberba e todos os homens deste mundo e tudo quanto há no mundo.

13 A santa caridade confunde to das as tentações do demônio e da carne e todos os temores carnais (cfr. 1Jo 4,18).

14 A santa obediência confunde todos os desejos sensuais e carnais

15 e mantém o corpo mortificado para obedecer ao espírito e obedecer a seu irmão,

16 e torna o homem submisso a todos os homens deste mundo,

17 e nem só aos homens, senão também a todas as bestas e feras

18 para que dele possam dispor o que quiserem, até o ponto que lho for permitido do alto pelo Senhor (cfr. Jo 19,11).

Este cântico, amplamente conhecido hoje em dia, é certamente uma das obras mais estudadas de São Francisco, e não há nenhuma dúvida sobre sua autenticidade. Já há referências preciosas em 1Cel 80, em 2Cel 165, em Legenda Maior 8,6. No Espelho da Perfeição é interessante ler desde o n. 115 até o n.120, que dá o texto. Mas o melhor texto é o do Cod. 338 de Assis. Já no sec. XIV muitos pergaminhos davam o texto completo, independente de outros escritos.


Altíssimo, onipotente, bom Senhor, teus são o louvor, a glória, a honra e toda bênção (cfr. Ap 4,9.11).

Só a ti, Altíssimo, são devidos; E homem algum é digno de te mencionar.

Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas (cfr. Tb 8,7), especialmente o senhor Frei Sol, que é dia e nos iluminas por ele.

E ele é belo e radiante com grande esplendor; de ti, Altíssimo, carrega a significação.

Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã Lua e as Estrelas (cfr. Sl 148,3), no céu as formaste claritas e preciosas e belas.

Louvado sejas, meu Senhor pelo Frei Vento, pelo ar, ou nublado ou sereno, e todo o tempo (cfr. Dn 3,64-65), pelo qual às tuas criaturas dás sustento.

Louvado sejas, meu Senhor pela Irmã Água (cfr. Sl 148, 4-5), que é muito útil e humilde e preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor, pelo Frei Fogo (cfr. Dn 3, 63) pelo qual iluminas a noite (cfr. Sl 77,14), e ele é belo e alegre e vigoroso e forte.

Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã a mãe Terra (cfr. Dn 3,74), que nos sustenta e governa, e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas (cfr. Sl 103,13-14).

10 Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por teu amor (cfr. Mt 6,12), e suportam enfermidades e tribulações.

11 Bem-aventurados os que as suportam em paz (cfr. Mt 5,10), que por ti, Altíssimo, serão coroados.

12 Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã a Morte corporal, da qual nenhum homem vivo pode escapar.

13 Ai dos que morrerem em pecados mortais! Felizes os que ela achar conformes à vossa santíssima vontade, porque a morte segunda não lhes fará mal! (cfr. Ap 2,11; 20,6)

14 Louvai e bendizei a meu Senhor (cfr. Dn 3,85), e dai-lhe graças, e servi-o com grande humildade.