FREI JUNÍPERO BEIER, OFM

(* 08/12/1914 – † 16/06/2006)

O Frade Menor

• Cultivou e viveu intensamente o carisma franciscano nos seus 68 anos como frade menor. Ao lado de Frei Mateus Hoepers e Frei Egberto Prangenberg, foi um entusiasta e apóstolo da Ordem Franciscana Secular. Pregador de retiros, conferencista, professor , educador, confessor, capelão, orientador de vida espiritual. Dele, poderia se dizer muita coisa. No entanto, foi pela sua bondade, simpatia e alegria franciscanas que ele marcou a vida de todos que o conheceram.

• De 1976 em diante, dedicou sua vida e energia na construção e manutenção do Lar São Francisco, para idosos da OFS. Fundou também a SAT – Sociedade de Amparo aos Tuberculosos – mantendo-se como seu assistente até recentemente.

• No dia 19 de outubro de 2004, já em cadeira de rodas, recebeu a última das inúmeras homenagens que o povo de Florianópolis lhe ofereceu ao longo dos seus 32 anos de vida na cidade: o título de Cidadão Catarinense oferecido pela Assembléia Legislativa do Estado.

• Pela fecundidade de sua vida e de seu testemunho, a Igreja, a Ordem e a Província foram enriquecidas. Somos gratos a Deus pela limpidez de sua consagração franciscana e ministerial.

Dados Pessoais

• Nascimento: 08 de dezembro de 1914 (91 anos) - Natural de Hamburgo, Alemanha.
• Nome de batismo: August Paul
• 08/08/1932 - Ingressou no Seminário de Garnstock, Bélgica.
• 25/04/1936 - Desembarque no Brasil.
• 1936-1937 - Seminário São Luís de Tolosa, Rio Negro-PR.
• 18/12/1937 - Vestição e admissão ao noviciado, em Rodeio-SC (68 anos de vida franciscana).
• 19/12/1938 - Primeira profissão dos votos simples, em Rodeio.
• 1939 - Início dos estudos de Filosofia, em Rodeio-SC.
• 1940 - Estudos de Filosofia, em Curitiba-PR.
• 1941-1944 - Estudos de Teologia, em Petrópolis-RJ.
• 21/12/1941 - Profissão solene dos votos perpétuos na Ordem Franciscana.
• 28/11/1943 - Ordenação presbiteral (62 anos de ministério sacerdotal). 

Atividades na evangelização

• 1945-1947 - Professor no Seminário Frei Galvão, em Guaratinguetá-SP.
• 1948-1951 - Professor no Seminário São Luis de Tolosa, Rio Negro-PR.
• 1952 - Capelão do Colégio S.C. de Jesus, em Florianópolis-SC.
• 1953-1954 - Vigário paroquial e professor, em Joaçaba-SC.
• Jul./1954-fev./1957 - Vice-diretor e prefeito da Escola Apostólica, em Fátima de São Lourenço-MT.
• 1957-1959 - Professor e prefeito do Colégio Santo Antônio, em Blumenau-SC.
• 1959-1961 - Prefeito e vice-diretor do Colégio Diocesano, em Lages-SC.
• Fev./1961-fev./1962 - Atendimento aos romeiros no Convento da Penha, em Vila Velha-ES.
• Fev./1962-1970 - Prefeito e diretor do Colégio Diocesano, em Lages-SC.
• Jan.-maio/1970 - Atendimento aos romeiros no Convento da Penha, em Vila Velha-ES.
• Maio/1970-fev./1971 - Vigário e coordenador na Colônia Esperança, Arapongas-PR.
• Fev./1971-fev./1974 - Pároco e guardião, em Curitibanos-SC.
• Fev./1974-2006 - Florianópolis-SC (32 anos).
• 1974-1983 - Guardião e Pároco.
• 1983-2006 - Assistente da OFS; Conselho Estadual de Educação; Professor no ITESC.

Homilia de Dom Murilo Krieger, Arcebispo de Florianópolis

Missa solene de corpo presente, às 15h

dia 17 de junho de 2006, na Igreja Santo Antônio

Na homilia de exéquias, cabe ao Celebrante lembrar as lições que, na perspectiva da fé, a morte dá à vida. Sim, porque a morte nos ensina muito. Ensina-nos, antes de tudo, que não temos aqui morada permanente. Contudo, nas exéquias de um sacerdote que nos deu inúmeras lições de vida, penso ser interessante perguntarmos quem foi Frei Junípero. Não pretendo me apresentar como aquele que tem as melhores respostas a essa pergunta. Mas, já que me cabe falar, acentuarei seis facetas desse nosso irmão.

Frei Junípero era alemão. Amava sua terra e seu povo, sem pretender fazer da raça um valor em si. Orgulhava-se de ter como seu conterrâneo o Papa Bento XVI. Porque amava sua pátria, soube amar também a pátria que o acolheu.

Frei Junípero foi um cristão. Como diria o Apóstolo Paulo aos romanos: batizado no Cristo Jesus, foi na sua morte que foi batizado. Membro de uma família católica, mostra-nos como é fundamental a educação da fé desde os primeiros anos de vida. Do Cristianismo aprendeu, sobretudo, o otimismo – isto é, a certeza de que a graça de Deus é infinitamente superior à miséria humana. Entende-se, pois, sua capacidade de compreender a todos e de relacionar-se com simplicidade com políticos ou comerciantes, com idosos do Lar São Francisco ou com fiéis que o procuravam diariamente na Igreja São Francisco.

Frei Junípero foi um franciscano. Quis seguir os passos de Jesus Cristo nas pegadas de Francisco de Assis. De seu padroeiro, imitou o estilo de vida simples e o desapego pessoal, o amor e a dedicação aos pobres. Descobriu que não era melhor do que os outros por ser franciscano, mas devia respeitar mais a cada um, já que na casa do Pai são muitas as moradas - isto é, o Pai acolhe o diferente e respeita as características de cada filho e cada filha.

Frei Junípero foi um sacerdote. É difícil, para alguém que o conheceu, imaginá-lo sem ser padre. Parecia-nos que o sacerdócio era inerente a ele. Entendeu seu ministério como um serviço, isto é, fez de sua missão distribuir os dons que Jesus Cristo deixou à sua Igreja. E há maior dom do que o próprio Cristo, caminho, verdade e vida?

Frei Junípero foi um missionário. Aceitou  vir para um país desconhecido, onde deveria aprender uma nova língua e novos costumes. Aqui, inculturou-se e passou a fazer sua a terra que o acolhera.

Frei Junípero foi um florianopolitano. Uma cidade não é somente o conjunto de seus prédios e de suas ruas; é, acima de tudo, a soma do rosto de seu povo – isto é, de seu jeito de ser, de trabalhar e sonhar. Uma cidade é um mosaico, formado por muitas pessoas. Para a formação do mosaico florianopolitano, Frei Junípero contribuiu com seu sorriso, sua alegria e sua dedicação aos que o procuravam ou dele necessitavam.

Vá em paz, meu irmão. Se morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele. Vá para a casa do Pai, onde são muitas as moradas. Vá para junto da Santíssima Trindade, que Você procurou amar e servir. Muito obrigado por sua presença amiga entre nós!

Frei Junípero nasceu no dia 8 de dezembro de 1914, em Altona/Elbe (Alemanha). Sempre gostou de lembrar ter nascido na festa da Imaculada Conceição. Sentia mesmo obrigações especiais para com a Imaculada. Um de seus livros de leitura nos anos 50/60 era o Tratado da Verdadeira Devoção de São Luís Maria Grignion de Montfort, cuja espiritualidade propagava com discrição, misturada à espiritualidade de Santa Teresinha. Posteriormente foi-se agarrando muito mais a São Francisco e à genuína piedade mariana herdada do santo de Assis.

Nasceu aos sete meses e foi desenganado pelos médicos. Pouco depois sofreu fratura da perna esquerda. Por erro médico, a perna teve de ser quebrada novamente e re-engessada. Passou um ano e meio no hospital, porque um enxame de doenças infantis o perseguiu, tanto que, só começou a falar aos quatro anos de idade. Ficou-lhe por toda a vida a perna defeituosa, 10cm mais curta. Aparentemente nunca teve complexos de sua perna esquerda. A grossa sola da sandália esquerda não o impedia de andar por onde quisesse e na pressa que desejasse.

HamburgoSeu pai era tanoeiro, ou seja, fabricante de tonéis e barris, exercendo a profissão no porto de Hamburgo. Sua mãe, dona Martha Clara Beier, nascida Liebner. O pai participara da Primeira Guerra, sendo ferido gravemente quatro vezes. Mudaram então da Silésia para Hamburgo. Frei Junípero é o quinto filho de sete (uma só irmã). Recebeu o nome de pai August, acrescido de Paul. Família religiosa, embora vivesse em meio 97% protestante. O pai costumava participar de duas missas aos domingos. A mãe era de missa diária, às 5h15 da manhã.
Foi batizado no dia 20 de dezembro de 1914, na paróquia São José, de Altona. Muito cedo tornou-se coroinha. Aliás, como criança frequentou todas as tarde o Kinderhort, uma espécie de jardim de infância, dirigido por religiosas, que ensinavam às crianças como rezar, como estudar, como brincar, como lutar por seus ideais. Frequentou oito anos a escola primária e três anos a escola de comércio, no campo da contabilidade. Chegou a exercer a profissão por quatro meses numa grande cooperativa socialista. Desde menino foi ativo membro da Juventude Católica e muito mais como adolescente. Frequentou cursos informais de oratória, de sociologia e de inglês, porque sonhava em ser um líder sindicalista dentro do Zentrum, partido que aglomerava as forças católicas na política.

No dia 21 de junho de 1924 recebeu a Primeira Comunhão. Aos 14 anos, por acaso, serviu de coroinha na inauguração solene da nova capela das Irmãs do Kinderhort. Terminada a celebração, a Irmã Superiora lhe deu de presente o livro História de uma alma, de Santa Teresinha, canonizada por Pio XI no ano santo de 1925. Quando terminou a leitura do livro, tomou a decisão: deixaria todos os sonhos acalentados até então e ficaria padre. Pensou em padre diocesano. O vigário lhe deu como professor particular de latim (o conhecimento era obrigatório para qualquer matrícula em seminário) um senhor que, aos poucos, lhe foi falando de São Francisco e das Missões franciscanas. Chegou a levá-lo para conhecer o Garnstock. A decisão ficou mudada: seria franciscano e missionário.

Entrou no Garnstock no dia 9 de agosto de 1932. Em carta particular para Frei Clarêncio, datada de 9 de agosto de 1952, lembrando os 20 anos de sua entrada, ele escrevia: “Durante a minha estadia no Garnstock ajudamos na construção do novo prédio do seminário. Havia um clima acentuado de piedade. Após a refeição, quase todos os alunos faziam a adoração do Santíssimo e muitos rezavam a Via-Sacra. Os estudos eram tomados muito a sério. Aos sábados havia silêncio à tarde e à noite tínhamos uma conferência espiritual que nos preparava para a liturgia de domingo”.

No dia 8 de março de 1936, saiu de férias de despedida dos pais e amigos. Embarcou, em Hamburgo, com seus colegas no “Monte Olívia”, no dia 3 de abril de 1936, acompanhados por Frei Crisóstomo Adams (†1944). Apesar de acompanhados por um Frade – conta ele – todo mundo no navio pensava que fôssemos um time de futebol. Mais tarde, quando recordava a viagem, gloriava-se de ter sido o único a não pagar tributo ao mar, com o famoso enjoo.

Chegaram ao porto de São Francisco no dia 25 de abril. Ao seminário de Rio Negro chegaram no dia seguinte, 26 de abril. Conta em carta: “Fiquei em Rio Negro um ano e oito meses. Pertenci ao coro e fui presidente da Academia, cujo diretor era Frei Alfredo Setaro. Matérias preferidas: história e geografia. Inesquecível me ficou em Rio Negro a morte do pai de Frei Lino Horacek. O velhinho morreu nos meus braços”.

RodeioComeçou o Noviciado no dia 18 de dezembro de 1937. Ganhou o nome que pedira. Viveu intensamente o ano. Em carta de 1953, escrevia: “Cresci muito espiritualmente no noviciado. Aprendi a ser fiel na oração interior e a desapegar-me das coisas e dos acontecimentos do mundo. Imagine que sequer fiquei sabendo da irrupção da Segunda Guerra Mundial no dia 1º de setembro. Fiz de fato uma experiência de vida: eu fui durante o ano só noviço. Não me interessei de outras coisas nem mesmo do trabalho. A leitura de um capítulo do livro de Hilarino Felder, Os ideais de São Francisco, tornou-se fundamental para o resto da minha vida. Foi justamente o capítulo sobre a oração. A partir daquela leitura, nunca mais tive dúvidas sobre o caminho franciscano da oração. Foi determinante para mim. E aprendi outra coisa: a oração não pode estar separada da Regra que prometemos viver. Por isso mesmo, copiei a mão toda a Regra e o Testamento  de nosso Pai num caderninho, que eu mesmo montei e encadernei. Até hoje o tenho comigo, diariamente, no meu bolso”. De fato o caderninho estava entre seus pertences à mão, quando morreu. Muito surrado, muito manuseado e suado, com algumas datas escritas à margem, cujo significado só ele conhecia.

Em outra carta lembra o excesso de jejum que fizera no noviciado e as horas que roubara do sono. Arrependia-se e atribuía a esse seu erro problemas sérios de saúde que teria nos anos seguintes. Outra frase dele: “Tanto Frei Tito quanto Frei Romualdo me impressionaram como filósofos, mais filósofos religiosos do que filósofos de verdade. Confesso que só estudei o que devia, porque também no primeiro ano de filosofia ocupei a maior parte do meu tempo à oração, que me fascinava”.

Em carta de 1995, escreve: “Na teologia cultivei mais o lado espiritual. A tal ponto que Frei Mateus me disse a respeito de um trabalho, que devia ser científico: ‘O senhor nos forneceu uma bela meditação’. De fato, em Petrópolis li São João da Cruz inteiro, todos os livros de Santa Teresa e tudo o que encontrava sobre Duns Scotus. Mas não eram estes os livros indicados como leitura obrigatória durante os anos de estudo teológico”.

Foi ordenado padre no dia 28 de novembro de 1943 por Dom José Pereira Alves. Eram 16 os ordinandos. Deu a primeira bênção sacerdotal ao então Ministro provincial Frei Mateus Hoepers, que lhe recebera a profissão solene e por quem tinha um grande sentimento de respeito e admiração. Em carta de 28 de novembro de 1953 contava: “Escrevi atrás do santinho esta frase de São Paulo aos Gálatas: Com Cristo estou pregado na cruz. Vivo, porém, já não vivo eu, Cristo vive em mim. Estas palavras me pareciam a expressão completa da vida franciscana”.

Foi à terra natal celebrar a Heimatprimiz só em maio de 1952. E a celebrou numa capela provisória da paróquia, porque a matriz estava ainda destruída pela guerra. Viviam ainda seus pais. Dois irmãos, porém, tinham tombado na guerra.

GuaratinguetáEm janeiro de 1945, recebeu obediência para o Seminário Frei Galvão, como professor, mestre dos Irmãos, confessor dos alunos. E deus assistência ao Mosteiro das Concepcionistas. Foi nesse tempo que começou a pregar retiros para muitas categorias de pessoas: religiosas, filhas de Maria, Ordem Terceira, sacerdotes franciscanos e diocesanos, profissões religiosas, novenas paroquiais. Deixou alguns quilos de cadernos com esquemas de retiros. Num caderninho ia anotando os compromissos realizados e o esquema usado e algumas observações para uso futuro.

Suas férias de fim de ano, metade do ano e Semana Santa estiveram inteiramente tomadas por pregação de retiro. Estava anotado em seu caderninho: em 1948: 3 dias às Irmãs Sacramentinas de Guaratinguetá, 8 dias às Concepcionistas de Guaratinguetá. Em 1949: 8 dias às Irmãs Franciscanas de Amparo, 4 dias às Irmãs Catequistas de Rodeio, 3 dias aos seminaristas de Rodeio, pregação diária da Semana Eucarística em Rio Negro. Em 1950: Retiro na “Casa Azul”, retiro aos seminaristas maiores de Rio Negro, 3 dias de pregação para a Páscoa dos militares em Rio Negro, retiro de 6 dias para as Irmãs Franciscanas de Piraquara, tríduo de São Roque em Piraquara, retiro à Ordem Terceira de Rio Negro, tríduo de São Francisco no Seminário de Rio Negro, retiro às Irmãs Franciscanas de Piraquara, retiro em alemão aos irmãos no Seminário de Agudos, 8 dias de retiro às Concepcionistas do Mosteiro da Luz em São Paulo. Em 1951: 6 dias de retiro às Irmãs da Divina Providência de Rio Negro, retiro aos seminaristas de Rodeio, retiro na “Casa Azul”, retiro em alemão a religiosas em São Paulo. E assim poderia ir enumerando ano após ano e chegar a, ao menos, uma centena e meia de retiros pregados, sem interromper seus trabalhos de professor.

Mais: mandava a alguns mosteiros e casas religiosas conferências por escrito. Assim consta em uma carta da Madre Maria de Lourdes de Santa Rosa, do Mosteiro de Guaratinguetá: “Agradeço a conferência enviada. Temos 17 conferências de V. Revma., que são: Festa do Seráfico Pai São Francisco, Natal, Ó caritas: Amor, Sexagésima, Quinquagésima, Sábado de Aleluia, Noli me tangere (Páscoa), Ascensão, Pentecostes, Santíssima Trindade, Sagrado Coração, Corpo de Deus, Imitação do Sagrado Coração, Progresso Espiritual, Crux Ave, Spes única, Deus meus et omnia, Trahe nos, Virgo Immaculata. Estou relendo na comunidade as conferências que V. Revma. fez à comunidade, quando era nosso confessor, sobre a observância da santa Regra”.

Cabe ainda uma observação: Frei Junípero era fidelíssimo aos seus retiros mensais e anuais. Provam-no suas anotações em caderninhos especiais, com controle de decisões e propósitos. Provavelmente, porém, na Província ninguém se lembre de um retiro com Frei Junípero presente, sendo outro o pregador. Fazia-os sempre sozinho, compos sui.

Em 21 de novembro de 1951, escreveu: “Em agosto estive 15 dias na Colônia Santa Teresa, entre os leprosos, substituindo o Capelão Frei Daniel. Tive também ensejo de ensaiar uma semana com eles a vida de Jesus, que depois com tanto brilhantismo representaram. Talvez sejam os leprosos os doentes que mais merecem nossa compaixão, não tanto por causa da doença, mas por causa da segregação, vivem expulsos da sociedade e por isso desconfiam de tudo. Mas amor, bondade e compreensão e paciência conquistam seus corações. Trabalhar entre os leprosos é bem um apostolado franciscano”.

Na mesma carta, escrevia ainda: “Na semana passada tivemos aqui em Rio Negro uma Semana Eucarística. Fui eu quem pregou de manhã e um padre da Congregação dos Dois Corações fez as práticas da tarde. Foi realmente uma semana de graças. Magnífica foi a procissão eucarística do domingo. Quase todos tinham velas e quando passamos pela Rua Quinze, todos os bares (menos um) tinham fechado as portas por respeito. Tivemos mais ou menos 3.500 comunhões”.

LagesQuando estava na direção do Colégio de Lages, Frei Junípero andava verdadeiramente perseguido pela ideia de fundar um Convento de Recesso. Bombardeou intensamente os Definidores e o Ministro Provincial. Suas cartas são contundentes. O Definitório se viu obrigado a fazer uma sessão especial sobre o assunto. Chegou a resolver que a Casa de Recesso se construiria em Petrópolis, junto ao santuário de Nossa Senhora Auxiliadora do Bingen, assim que se vendesse uma chácara ganha na serra de Petrópolis. No ir e vir das coisas, pouco aconteceu. Então Frei Junípero pediu oficialmente permissão de uma experiência em Casa de Recesso da Itália. O Ministro lhe responde que naquele momento era impossível, porque não encontrava um substituto para o Colégio. Seguem alguns trechos transcritos destas cartas enviadas ao Ministro Provincial Frei Walter Kempf, encontradas no Provincialado:

“Meu caro Provincial, quanto mais me aprofundo nos documentos do Concílio, quanto mais leio e releio as notícias vindas de todas as partes do mundo, quanto mais eu tomo conhecimento da primavera que se prepara tanto para a santa Igreja quanto para a nossa querida Ordem, tanto mais me convenço que o chamamento de Deus a meu respeito é autêntico, é legítimo, e, como nunca antes, necessário, para não dizer indispensável. Se se tratasse de minha pessoa individual, dos meus planos e projetos particulares, eu não insistiria tanto e até mesmo teria desistido por completo de sempre de novo apresentar a ideia da casa de recesso. Mas não se trata apenas de mim. Não me tenho em conta de profeta. Mas eu sei que o bom Deus quer tal casa para o nosso Brasil. O tempo e as necessidades da Igreja e da humanidade mais do que nunca o exigem”.

“Quase não posso mais esperar o dia em que me é dado de viver também em maior solidão, em maior recolhimento, em mais oração e pobreza para assim, da minha parte, segundo o chamamento de Deus que sinto irresistivelmente, ajudar que no nosso Brasil se origine um segundo Taizé, prolongação da Porciúncula e do Alverne, onde o nosso espírito franciscano começou a transformar o tempo de então”.

“Talvez vão dizer: todos o poderiam, menos eu que sou inconstante e não mereço a necessária confiança. Dou razão a todos os que assim pensam e falam, pois, meu passado não demonstrou outra coisa. Mas, como já lhe disse, Deus é grande, rezei muito. Por que não se pode mostrar forte a força de Deus na minha fraqueza? Tenho certeza que assim acontecerá. Não poderei mais encontrar sossego, enquanto não me for permitido a experiência da vida de casa de recesso”.

“Portanto, peço de novo, bem formalmente, me seja dada no fim do ano a oportunidade de, quem sabe por um ano, viver em Fonte Colombo, se assim os Superiores permitirem, para depois eu poder transplantar, amoldado à situação brasileira, o espírito franciscano atualíssimo de uma casa de recesso. Caso achar conveniente, eu mesmo farei o pedido ao Ministro Geral, naturalmente secundado por você, como meu Ministro Provincial. Quero que, através da obediência, eu obtenha a bênção em toda a sua plenitude”.

“Insisto, ou melhor, o próprio Deus insiste no meu pedido. Tantos confrades estão pedindo exclaustração e até laicização. Eu, sendo mandado a uma casa de recesso, não serei um frade a menos e sim represento a bênção toda especial de Deus para a nossa Província. Espero, portanto, que me deixe seguir a minha vocação especial, esse meu desiderium perlaudabile, para a glória de Deus”.

Frei Antônio Nader explica como este sonho se realizou: “Nada satisfazia aquele grande coração franciscano. Sonhava com a solidão. Não sossegou até que resolvemos construir no sítio do Colégio um eremitério especial para Frei Junípero realizar seu sonho de viver alguns dias em solidão. Usamos as madeiras que tínhamos no sítio e, com os próprios operários do sítio e do colégio, construímos uma casa que Frei Junípero passou a chamar de Betânia. Tinha uma pequena capela, boas instalações sanitárias e dois quartos, sala de leitura e pequeno depósito ao lado da cozinha. O eremitério estava plantado no meio do mato, aliás, uma paisagem bem franciscana, como Francisco gostaria de ter tido. Lá se foi Frei Junípero para a solidão. Só que não aguentava mais que 3 ou 4 dias. Suas refeições eram preparadas pela família do caseiro, que tinha veneração pelo frade ermitão”.

Numa nota muito íntima, em dia de retiro mensal, Frei Junípero escreveu: “Faltou-me, creio, da minha parte a séria preparação e completo desapego que a vida no eremitério pressupõe. Acho hoje (1982), olhando para trás, que o meu despreparo provinha em grande parte das múltiplas atividades impostas pela obediência e que eu procurava sempre executar o melhor possível”. Mesmo longe de Lages, voltou outros períodos ao Retiro. Em fins dos anos 90 aparece insistente nos caderninhos frases como esta: “Não posso, não devo desistir do recesso”, “Estou convencido que devo construir o recesso dentro de mim, onde quer que esteja”.

Frei Junípero sempre foi de fazer amigos e sempre era fiel à amizade despertada e construída. Alinda página que escreveu Frei Elzeário (†2010) comprova sua quase mania de transformar encontros em amizades e amizades em apostolado.

“Ao que de mais legítimo temos na história recente da Província pertence também o exemplo de vida deste frade meio manco chamado Junípero. E se hoje existisse entre nós uma coleção de lendas como I Fioretti, destaque necessário receberia nela a figura desse franciscano de hoje, incorrigível otimista, luminosamente apostólico, incrivelmente forte e popularíssimo na capital de Santa Catarina, por cujas ruas, anos sem fim, o florianopolitano, respeitoso e admirado, via passar o fradinho-espetáculo, que, sempre de hábito franciscano, sempre de sorriso, de palavras boas, integrava a paisagem humana mais tradicional e cativante da cidade. Cativante. E muito honrosa para nós.

Para a Florianópolis católica, sobretudo, a morte de Frei Junípero se abre em sombra, porém para logo ser invadida em luz outra vez; pois essas sandálias deixaram ali marcas tão visíveis, que nesse histórico chão muito difíceis serão de apagar. Na vetusta cidade ‘dos ocasos raros’, hoje mais decantada do que antigamente, a presença constante do hábito franciscano pelas ruas, graças ao exemplo de Frei Junípero, marcava ali a presença antiquíssima de São Francisco de Assis; pois, bem antes de os franciscanos se estabelecerem no Desterro (1909), a Venerável Ordem Terceira do mesmo santo constituía na Ilha um núcleo religioso poderoso, com sede na igreja mais histórica, a de São Francisco, de projeção social muito destacada, que para as festas nunca dispensava a presença de um franciscano, convidado de algum convento mais ao norte. Embora juridicamente pertencesse à paróquia da catedral, a Igreja de São Francisco nunca foi disputada aos franciscanos, já porque, adjudicada à Ordem Terceira, nela o capelão, necessariamente franciscano, de missa diária no movimentado templo, era o natural conselheiro, assistente e guia da Venerável Ordem. Com sua inimitável franciscanidade e dedicação total, até ciumento de sua missão, foi Frei Junípero quem durante mais tempo, até hoje, vinha exercendo esta missão, para ele honrosissima, mesmo quando já mal podia andar. [...]

Frei Junípero VConfessor de bispos e padres, presente à nossa Liturgia das Horas sem defecção alguma, zelosíssimo das normas litúrgicas vigentes, de pontualidade exemplar em tudo, Frei Junípero à noite, depois de suas fainas apostólicas na cidade, subia de volta ao seu convento quase nunca depois da 21h, para trazer-nos à sala de estar as novidades do dia, mas não antes de haver feito alguns telefonemas. Mantinha alentada correspondência epistolar, não somente com seus familiares em Hamburgo, mas também com bom número de pessoas das suas relações no Brasil, não deixando nunca de responder a qualquer mensagem por singela que fosse. Sua velha máquina de escrever, até o fim, foi o instrumento heroico dessa comunicação do fradinho de inquietas preocupações e quente coração, cuja franciscanidade irradiava alegria e graça, apostolado e carinho para muito além dos muros do Convento de Santo Antônio em Florianópolis”.

Uma honraria de que muito gostou foi sua escolha pela RBS, representante da Rede Globo, para receber o Troféu Amigo da Comunidade. O fato foi marcado por um almoço solene, com muitas autoridades presentes. O próprio governador do Estado lhe entregou o troféu. A Assembleia Legislativa de Santa Catarina lhe concedeu o título de Cidadão Catarinense, na sessão solene de 19 de outubro de 2004. Na ocasião estava em cadeira de rodas, porque, no dia 10 de outubro, sofrera uma queda em casa de amigos. Batera a cabeça, fraturara os dois ossos do punho esquerdo e lesara duas vértebras. Obrigado a usar colete elástico, não deixara de celebrar a missa, embora sentado.

Frei Junípero IVFrei Junípero, como vimos, era Assistente Espiritual da Fraternidade São Francisco das Chagas da Ordem Franciscana Secular, fundada em 1745, e capelão da Igreja São Francisco, pertencente à mesma Ordem, no centro de Florianópolis. Ligada à Fraternidade da OFS, estava também a obra do Lar São Francisco. Preocupada com a idade de seus membros e com o fato de já alguns estarem abrigados em asilos espíritas, a Fraternidade queria construir uma casa em que seus membros envelhecidos pudessem ter uma vida tranquila e piedosa. Frei Junípero apoiou a ideia da então irmã Ministra Dona Helena Caminha Borba de um lar e saiu à procura de meios financeiros. A construção começou em novembro de 1976. Nesta construção Frei Junípero pôs alma e coração, porque via nela uma obra de verdadeira caridade.

À altura da transferência para a Fraternidade de Santos (1977), o Lar precisava de mais um ano de trabalho para seu acabamento. Tanta a OFS quanto ele mesmo estavam convencidos de que, saindo ele, minguariam os recursos financeiros. O Lar, situado no Alto Ribeirão da Ilha, município de Florianópolis, foi inaugurado no dia 25 de novembro de 1980, festa de Santa Catarina, padroeira do Estado, com missa celebrada pelo Arcebispo Dom Afonso Niehues. Em 1983 se anexou ao Lar uma casa de oração “Rosa Mística”. E no dia 13 de maio de 1992, pôde inaugurar, sempre junto ao Lar, uma casa de retiros para 60 pessoas.

Em carta de setembro de 1995, escrevia a Frei Clarêncio: “O motivo principal desta missiva é lhe mandar o programa do jubileu de 250 anos de existência da nossa Fraternidade São Francisco, aqui em Florianópolis. Sinto necessidade íntima de partilhar com você esta alegria. Sei que não poderá estar presente. Mas sei que rezará por nós. Você conhece as obras da Fraternidade: o Lar São Francisco, um lar para os nosso velhinhos (redondamente uns 60), cada um com seu apartamento e não no estilo de quartas coletivos, como geralmente são os asilos. Faz dois anos que temos também o nosso Núcleo Rosa Mística, a nossa casa de retiros para umas 60 pessoas e que tem um movimento contínuo. A Sociedade de Amparo aos Tuberculosos (SAT) está no momento cuidando de 80 tuberculosos e suas famílias”.

Frei JuníperoQuanto ao Conselho Estadual de Educação a que Frei Junípero pertencia desde julho de 1977, transcrevemos a carta de seu Presidente Prof. Carlos Jaime Martendal a Frei Basílio: “Na manhã de hoje, por dever de ofício, recebi a comunicação de Frei Junípero Beier, OFM, relativamente à sua transferência para a cidade de Santos, no Estado de São Paulo. Frei Junípero, sabe-o Vossa Reverendíssima, é membro do Conselho Estadual de Educação do nosso Estado, colegiado que, no momento, tenha a honra de presidir. Indicado pelo ex-Governador Antônio Carlos Konder Reis, para cumprir um período de seis anos neste órgão, Frei Junípero ainda tem cerca de três anos e meio de mandato.

Sua presença, sendo, inclusive o decano dos senhores conselheiros, é de suma importância para este órgão colegiado e, permita-me aduzir, de real significação para os franciscanos e para a nossa Igreja. A atuação ponderada, a orientação e o norte que tem marcado a atuação deste insigne Conselheiro, faz-me vir à presença de Vossa Reverendíssima no sentido de fazer sentir a perda que representaria, para todos nós, a eventual saída de Frei Junípero. Não quero nem devo, em nenhum hipótese ou circunstância, imiscuir-me em assuntos desta Congregação. Mas, de outra parte, não posso nem devo, em nome do Conselho Estadual de Educação do Estado de Santa Catarina, omitir-me. Por isso, venho pedir-lhe seja examinada a possibilidade de revisão da decisão tomada, vez que, volto a repetir, a saída de Frei Junípero representaria uma lacuna difícil de ser preenchida”.

O mesmo professor, agora em caráter pessoal, escreveu na mesma data outra carta a Frei Basílio, da qual destacamos algumas frases: “Conheço Frei Junípero desde os tempos em que fui aluno dele em Blumenau, no Colégio Santo Antônio. Lá como aqui sou admirador das qualidades de Frei Junípero, que desde cedo me mostrou, de forma concreta, os caminhos do Senhor (hoje, grande honra, sou Ministro da Eucaristia). Devo muito a ele: a orientação, os estudos e bastante da minha solidez na formação cristã. Hoje, mais uma feliz coincidência, participamos do movimento das Equipes de Nossa Senhora. Minha esposa e eu somos os responsáveis pelo Setor A de Florianópolis e Frei Junípero é um dos Conselheiros Espirituais das Equipes. O que ele tem conseguido junto à comunidade é digno de louvor”.

Ao todo, Frei Junípero foi membro do Conselho Estadual de Educação por 18 anos.

Em setembro de 1995, respondendo a uma carta de Frei Junípero, Frei Clarêncio enviou-lhe 21 adjetivos e lhe pediu que escolhesse cinco que, segundo ele, o descreveriam como pessoa humana. E que os pusesse na ordem de precedência. Ele respondeu e pôs os seguintes: manso, simples, pacífico, disponível e otimista.

Seu otimismo era famoso, quase lendário. Recebeu até um poema de Jandira d’Ávila:

Otimismo

Achar o bom onde tudo é mau,
Encontrar o bem onde reina o mal,
Dizer o sim onde o não se mostra,
Andar pra frente, quando parar se encosta,
Ver nos espinhos a rosa nascente,
Ver no cascalho a maciez da seda,
Sentir na dor a doce luz da glória,
Cortar o luto com o som da vitória,
Ver na pobreza o esplendor do ouro,
Olhar o triste com o saber protetor,
Rir da amargura sem sentir a dor,
Entregar-se à vida com prazer e amor:
São coisas loucas até certo ponto,
Até difíceis de acreditar,
Mas são maneiras de viver a vida
Deste ser querido de nobreza sã,
Deste homem quase na classe dos santos.
Vida completa de amor-bondade
Símbolo de tudo que alguém deseje
Para a velhice e que o amor enseje
Para o triunfo de passar por tudo
Sem que a beleza de seu eu desfaça
Sem quebrar o respeito da alma sem jaça.
Pastor sereno, risonho e seguro
Olhar de amor repleto de perdão
Símbolo de trabalho no suor tão puro
Céu no olhar, em tudo gratidão
Este é Junípero, conselheiro-irmão.

Frei Junípero III